O Ensino do Anti-Semitismo

Com Shalom, 245 (V), São Paulo, p. 37, 17 a 23 nov 2002.

 

É importante que o leitor saiba que o ensino de conteúdo mentiroso contra o Estado de Israel e os judeus não é exclusividade do colégio e cursinho Objetivo, citado na edição Nº 244 desta Revista. Pior, o texto que a Revista criticou inclui poucas e sutis distorções, e é pouco contrário a Israel, se comparado com outros que circulam nas mais renomadas instituições de ensino da Grande São Paulo (pode ser também em outras regiões, mas desconheço).

A Associação dos Professores da PUC-SP tem publicado, em conjunto com a Associação dos Funcionários e representantes de alunos, textos que afirmam com todas as letras que:

a) “não há a menor diferença ética entre o que os nazistas fizeram com os judeus e o que Israel faz com os palestinos”, negando as diferenças em magnitude, crueldade, motivos e objetivos entre os fenômenos, banalizando o Holocausto, negando que este tenha sido um crime de gravidade extrema e rara na história da Humanidade e negando assim a razão de ser do Estado de Israel - a defesa contra perseguições anti-semitas, e projetando uma imagem de monstros sobre os judeus e vítimas inocentes sobre os palestinos; 

b) o Estado de Israel é uma nação imperialista, criada e mantida pelos Estados Unidos e aliados com a intenção de fazer valer seus interesses no Oriente Médio (sem dúvida isso é parcialmente verdadeiro, mas esses professores mais uma vez denegam que o Estado de Israel foi constituído a partir do interesse legítimo de um povo judeu sofrido para obter abrigo);

c) deveria haver um único Estado laico para ser compartilhado entre judeus e palestinos (o que é uma forma bonita de dizer que o povo judeu seria o único povo do mundo que não teria direito a seu Estado);

d) o terrorismo palestino é a resposta legítima de uma nação oprimida pelo “terrorismo de Estado” israelense (e não que tenha fundamento no desejo de grupos extremistas árabes de destruir o Estado de Israel, querendo todo o território para si);

e) o conflito entre israelenses e palestinos é um conflito de ricos poderosos contra pobres indefesos (como se os árabes não possuíssem dinheiro e petróleo, preferindo manter os palestinos em situação de miséria propositadamente para incitá-los contra Israel);

f) o povo judeu não existe enquanto tal e dizer que existe o povo judeu é um mero artifício para justificar a busca por vantagens político-econômicas. (Prefiro não comentar).

Fornecerei cópias dos textos publicados por esses professores a qualquer leitor que venha a me pedir.

Essa Associação de Professores tem organizado atos e lotado diversas vezes o Teatro da PUC para divulgar essas idéias. Muitas das pessoas que têm apoiado esse movimento são jovens ingênuos e bem intencionados que acreditam estarem fazendo uma boa ação e defendendo os oprimidos. É necessário que os esclareçamos.

Outro exemplo, é de umas das mais importantes Instituições de Ensino Superior do ABC, cuja resposta correta à questão sobre o Oriente Médio do Concurso para Ingresso de Docentes era que a Segunda Intifada foi causada pela recusa israelense de criar um Estado Palestino.

Na verdade, bem sabemos que a Segunda Intifida insurgiu logo após Barak ter oferecido a criação de tal Estado. O que os palestinos não aceitaram foram as condições para a criação desse. Israel já se manifestou várias vezes favoravelmente à criação de tal Estado em sua história. Aliás, o Estado Palestino não foi criado em 1948 somente porque a Liga Árabe (notadamente Egito e Jordânia) não permitiram.

É muito importante que todos nós fiscalizemos o trabalho dos professores e garantamos um suporte a nossos jovens e aos jovens não-judeus para que saibam distinguir as verdades das mentiras e os fatos das interpretações.

Se mesmo muitos de nós criticamos pontos da atuação recente do Governo de Israel, isso não equivale a dizer que possamos permitir que se diga que os judeus não têm direito a Israel. O argumento de que o anti-sionismo não é anti-semitismo é inaceitável, pois Israel é nossa fortaleza e salvaguarda contra o anti-semitismo. Além disso, por que seríamos o único povo que não tem direito a seu Estado?

Muitos de nós têm preferido calar-se por receio de futuras discriminações ou presente violência. Essa não me parece ser a melhor estratégia. Os judeus devem defender seu povo enquanto ainda temos o Direito de Expressão, enquanto ainda não é tarde demais.

 

Eric Calderoni (ecalderoni@uol.com.br) é psicoterapeuta, orientador vocacional e selecionador de pessoal em São Paulo, Mestre em Psicologia pela The London School of Economics and Political Science e professor de Relações Internacionais nas Faculdades Tancredo Neves.