Comentários sobre a
FIB – Felicidade Interna Bruta
A
discussão sobre novos indicadores de “desenvolvimento” está na ordem do dia e
crescendo nos fóruns internacionais e começa a chegar no Brasil. A discussão é essencial,
pois se trata da definição da finalidade das políticas públicas, dos critérios
em relação aos quais em última análise devem ser medidos seus relativos
sucessos ou fracassos.
Como
contribuição, compartilho algumas reflexões sobre a escolha do conceito-orientador
das políticas públicas (e da psicologia) e sobre sua operacionalização:
-
qual o conceito que deve orientar a elaboração das políticas públicas (e da
atuação dos psicólogos, por exemplo):
Promoção de saúde: a resposta comumentemente dada é que deveria visar a “promoção de
saúde”. Para tanto, se define “saúde” de forma ampla e utópica, para que
englobe praticamente todos os aspectos da vida. Daí, a prática é a de combate
às doenças, enquanto se diz que deveria ser mais ampla. Enfim, é um conceito
inadequado, pois que restrito, e então se deu uma volta, modificando a
definição do conceito ao invés de substituí-lo. Vejam, mesmo quando se fala em
promoção de saúde, o objetivo continua sendo a saúde, as
melhorias nas condições de vida parece que são meios para se obter o fim
que é a saúde. Opera-se assim o que chamei de “inversão entre fins e meios” em
meu artigo de 2003 na revista psicologia argumento.
Qualidade-de-vida X felicidade: o objetivo das políticas públicas e da
psicologia deveria ser a promoção da felicidade, objetivo bastante radical. O
problema é que felicidade é subjetivo. Daí que pode servir bem como objetivo da
psicoterapia, mas mais difícil para as políticas públicas ou gestão
organizacional. Então se pensou em “qualidade-de-vida”
que se supõe ser o lado objetivo da felicidade (subjetiva). A idéia é que se
tivessem maior qualidade-de-vida, as pessoas seriam
mais felizes. Abre-se então um grande campo de pesquisas para as relações entre
objetividade (qualidade-de-vida) e subjetividade
(felicidade). Um percalço: o conceito de “felicidade” também não é livre de
obstáculos. A defesa incondicional da felicidade, caso seja definida por
critérios meramente subjetivos, pode levar a proposições à la admirável
mundo novo, ou os lotófagos da mitologia
analisados na dialética do esclarecimento de Adorno e Horkheimer.
Ou seja, a idéia de que às vezes é melhor não saber. Daí que se tenta ampliar o
conceito de “felicidade” para querer dizer uma felicidade não alienada. Já se
inclui então elementos objetivos ao conceito. Desponta daí o conceito de
“qualidade de vida” como aquele que permite melhor a expressão dos valores
intersubjetivos. No conceito de “qualidade” está mais clara a noção de que há
uma normatização do que é o ideal de vida.
-
operacionalização dos conceitos:
Independentemente
do conceito orientador, é preciso que ele seja operacionalizado de maneira emancipadora. Isso é o que tentamos fazer com o conceito de
saúde. Geralmente a escolha da operacionalização é mais importante do que a
escolha do conceito. O pior dos mundos é quando (por exemplo as empresas) utilizam-se de conceitos bons ou bonitos e os
operacionalizam de forma perversa para fins de maquiagem de suas práticas
nefastas (exs: “responsabilidade social”, “médico do
trabalho”).
O
primeiro passo para a operacionalização de um conceito todo-abrangente geralmente é sua
decomposição em dimensões. As escalas de qualidade-de-vida
quase sempre omitem dentre suas dimensões a organização do trabalho (vejam por
exemplo a escala amplamente utilizada pela Organização Mundial de Saúde em http://www.ufrgs.br/psiq/whoqold.pdf ). Qualidade de vida para elas, é aquilo que ocorre fora do
trabalho. E geralmente operacionalizada de forma individual e não relacional
(exceções são questões como dinâmica familiar e amigos). Assim, se reforça a
dicotomia mundo do trabalho (da produção) e mundo da vida (do consumo), o tempo
do trabalhador dentro da empresa é considerado como não lhe pertencendo, pois
foi vendido para o empregador. Às vezes aparecem nas escalas considerações
sobre o trabalho, mas de forma muito frágil em relação à centralidade cotidiana
e identitária que o trabalho realmente tem.
Geralmente tais considerações se centram na governança/circulação de
informações (que já é um eufemismo para “transparência”, que por sua vez é
muito menos do que “participação”, que por sua vez é muito menos do que
“democracia” e que “propriedade dos meios de produção para o trabalhador”).
Operam daí, como sempre, as inversões entre fins e meios, a qualidade de vida é
colocada como importante para promover a saúde (e não o inverso) e para que o
indivíduo agüente a rotina de trabalho com resiliência
(lembram-se por exemplo do “refugio num mundo sem coração” do Lasch?).
-
a FIB (Felicidade Interna Bruta):
A
filosofia estatística está disponível em http://www.grossinternationalhappiness.org/
. É importante destacar que não é nem a primeira nem a última tentativa de
questionar a centralidade do PIB.
O
índice de Gini começou como um
crítica ainda dentro da economia, no sentido de que não basta crescer,
tem que dividir; um exercício bastante simples que propus certa vez para unir
num único indicador riqueza e igualdade foi tirar a média geométrica ao invés
da média aritmética no cálculo da renda per capita (ou o quadrado da soma das raizes quadradas das rendas individuais), para considerar
que a utilidade marginal da riqueza é decrescente. Há muitas propostas que vêm
do ambientalismo tentando internalizar as externalidades da produção (subtrair da riqueza geral o
prejuízo causado pela poluição e pela degradação dos recursos naturais). O
conceito de “PIB verde” proposto pela China é uma das más propostas nessa
segunda família, pois é um indicador que confunde dano ambiental (presente e
futuro) com investimento em reparação (presente) desincentivando
assim investimentos em remediação ambiental como
forma de melhorar a contabilidade. Poderíamos pensar como uma terceira família
de críticas ao PIB as propostas que visam incorporar
aspectos mais amplos do bem estar. A mais famosa foi o IDH, que coloca renda,
saúde e educação como os pilares do desenvolvimento humano. A quarta família
seria a daquelas estatísticas que visam incorporar aspectos do cotidiano,
aproximando os conceitos de desenvolvimento, felicidade e qualidade de vida.
Dentro
dessa quarta família surge o FIB, como um movimento político por parte do
monarca butanês para justificar sua não adesão ao modelo predatório de
globalização corporativa, sem cair no papo de que dinheiro não traz felicidade
(retrato romântico do brasileiro pobre feliz, por exemplo), ao mesmo tempo em
que propalando a ideologia budista (com seus prós e seus contras, i.e. em seus
aspectos emancipadores, mas
também nos seus aspectos alienantes).
Parece
que o conceito já teve duas ou mais formas de
operacionalização: na forma resumida no artigo do Estadão, o FIB se parece muitíssimo com
uma escala de qualidade de vida. A última dimensão mede a felicidade
(subjetiva) e as outras medem aspectos que não dão centralidade à organização
do trabalho. O trabalho aparece na extensão da jornada e na governança (que é
apenas um aspecto, e muito distanciado da essência) da organização do trabalho.
A questão omitida é que quanto pior a organização do trabalho, mais importante
é a redução da jornada, e vice-versa. Além disso, teríamos que olhar o que eles
chamam de “cultura” e educação de “qualidade”.
Já
a versão desenvolvida pelo IIM (http://www.iim-edu.org/polls/grossnationalhappinesssurvey.htm ) parece mais avançada. Uma das sete dimensões é a
satisfação no cotidiano de trabalho e outra delas está ligada aos direitos
políticos e participação efetiva nas decisões do Estado. Esse é o tipo de
medida de qualidade de vida que promove a emancipação, restando discutir e
aprimorar detalhes. Escalas tradicionais de qualidade de vida individualísticas (qualidade da vida fora do trabalho e da
política) obscurecem a frequente origem dos problemas
que elas medem (que está no cotidiano de trabalho) e assim podem prestar um
desserviço.
Esse
tipo de debate é muito importante, está ganhando peso na orientação de
políticas públicas, é importante participarmos dele.
Eric
Calderoni
Psicólogo
do Trabalho
Doutor
em Psicologia Social